
La música estalla cuando al abrir la puerta
das el último atusón al cabello, dentro
enrojecen las sombras, fluyen pastosas
como un secreto inofensivo. Te acomodas
en la barra. Te apareces bastante ajeno
mientras sorbes despacio, con intriga,
un híbrido combinado de muchos alcoholes.
Ella se acerca entre satinados paños y zurea
lacónica su diestra petición de enlace
que aceptas con fingida abulia.
Te rodea el cuello con sus brazos, desanuda
sonriente la corbata y te empuja
entre las coloradas sombras hacia ciertos
peldaños que en el fondo emergen.
Tu corazón corea el ritmo de la música,
tras el nailon lucen unos muslos
hinchados cuya cadencia halaga
y descompone la acrimonia del lugar.
Muy pronto la cubrirás con tu deseo,
y ella, levantando ligeramente una pierna
por encima de tus jadeos, preocupada
repasará con el índice ensalivado
una triste carrera en la media.
José Ángel Cilleruelo In "antologia", Averno, 2004, p 30.
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.jpg)
Eu sou a juventude: sou o canto das avelaneiras a deixar oiro
aos meus cabelos, que são teus.
Na minha carne verás o poder do teu quebranto
e a arte que na memória toca o fundo de duas árvores opostas
a tornarem-se uma só.
Sou o fruto que receio de mim,
quando me ouvires contar a minha história cercada de alabastro. Sou
o que desejas agora, nessa audácia pelos campos
com desapego e indolência. E não verás nenhuma fonte,
mas posso falar-te de uma a nove léguas de distância.
Eu sou a juventude que possuis,
sou a vanglória atraída a outra coisa que viu longe,
que em breve saberás.
Abrigo a tua pele ignorada para que nenhuma mulher te veja sem amar-te, e
dos meus jardins te afasto,
cujas lembranças que terás os tornam graciosos.
Nem sempre creias na cidade futura a que prometia que chegasses,
nem enquanto nos tivermos apenas a nós dois
nesses corações, que nossos, não pensam no que nasce.
Virá o tempo em que te verás desaparecer
e eu já não poderei imaginar-te. E
com os frutos que se desprendem
entre olvidos, como agora se despede esta manhã,
irás dizer-me de uma forma distante
o que dentro e à volta do mundo eu fui deixando.
Sim, em breve eu e tu, e dos restantes, estaremos separados,
e a todos quererão outros lábios mais vorazes, que
sejam, em vez de mim, o meu perdão.
Sim... em breve... olha além a luz que clareia os campos,
vê lá os cantoneiros a segredar que estão aqui,
vê os vigilantes de jardins a acender o funcho, mais
os que estão por nascer, mais os velhos em redor do fumo e que estão certos,
vê se calhar isolado entre as heras o meu canto,
mas não digas adeus, não acenes cabisbaixo à cidade que se afasta; que
na última colheita dos teus frutos
virei com meu rebanho
sobre as nuvens dos teus filhos.
Rui Coias (Pré-publicação)
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Je suis la jeunesse: je suis le chant des aveniliers laissant tomber l'or
dans mes cheveux, qui sont à toi
Dans ma chair tu verras le pouvoir de ta lassitude,
et l'art qui, dans la mémoire, touche le fond
de deux arbres opposés devenant un seul.
Je suis le fruit qui me crains,
quand tu m'écouteras raconter mon histoire cernée d'albâtre.
Je suis ce que tu désires à présent, dans cette audace parmi les champs,
détaché et indolent.
Tu ne verras aucune fontaine mais je peux t'en parler
d'une à neuf lieues de distance.
Je suis la jeunesse que tu possèdes
je suis la vaine gloire attirée par autre chose qui au loin se prolonge,
bientôt tu le sauras.
Je mets ta peau à l'abri pour qu'aucune femme ne te voit sans t'aimer,
et de mes jardins je t'éloigne,
selon les souvenirs que tu possèdes, cela les rendra pleins de grâce.
Ne crois pas toujours dans la ville future
à laquelle je promettais que tu arriverais,
ni pendant que nous nous possédons, l'un l'autre dans ces coeurs,
qui sont les nôtres, car ils ne pensent pas à ce qui prend vie
à mes cheveux, qui sont à toi.
Viendra le temps où tu te verras disparaître
et moi je ne pourrai plus t'imaginer.
Et avec les fruits qui se dátachent entre les oublis,
comme maintenant prends congé de nous ce matin,
tu iras me dire d'une façon distante
ce que dedans et autour du monde j'ai laissé.
Oui, bientôt, toi et moi, des autres, nous serons séparés
et tous voudront d'autres lèvres plus voraces,
qu'ils soient, ainsi et à ma place, ils voudront mon pardon.
Oui... bientôt... regarde au loin la lumière qui éclaire les champs,
vois les cantonniers murmurant qu'ils sont ici,
vois les veilleurs de jardins qui allument le fenouil,
et ceux qui sont à naître, et les vieux autour de la fumée et qui ne doutent pas,
vois peut-être isolé entre les lierres de mon chant,
mais ne dis pas adieu, pas de salut pensif vers la ville qui s'éloigne;
dans la dernière cueillette de tes fruits
je viendrai avec mon troupeau
sur les nuages de tes enfants.
Lidia Martinez e Guy Vivien traduzindo Rui Coias
(Nota - os meus agradecimentos ao Rui Coias por me ter autorizado esta pré-publicação.
Os meus agradecimentos à Lidia Martinez e ao Guy Vivien por terem ousado esta
excelente tradução de um tão belo poema).


A "Editora Trinta Por Uma Linha" lança, no dia 4 de Julho, pelas 17h,00, o livro
"Verso a Verso - Antologia Poética", da autoria de Amadeu Baptista, Francisco Duarte Mangas,
João Manuel Ribeiro, Luísa Ducla Soares, Nuno Higino, José António Franco e
Vergílio Alberto Vieira. As ilustrações são de João Concha.
A apresentação será feita por Sérgio Almeida ( jornalista do J.N.) e ocorrerá na
"Tropelias & Companhia" (à Rua Calouste Gulbenkian, 201, no Mota Galiza, PORTO ).
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"Gato sem sorriso" foto de Jerzy Urban (2008)
desconfia sempre de alguém
que se justifica com a falta de tempo.
nós temos sempre tempo
para aquilo que realmente queremos.
uma pessoa que deixou
de ter tempo para ti
foi uma pessoa que te elidiu
para sempre da sua vida.
Vitor Oliveira Jorge In "Pequeno Livro de Aforismos seguido de
Algumas Alumiações", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008, p 16.
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À l'eau sombre qui là-bas recueille
le vert ferment d'une aube sur terre -
à l'eau qui va riant dans les pierres
dissiper la ferveur des images -
à la goutte d'eau claire dans mon oeil
mémoire d'une aveugle fraîcheur
quand l'âme vérifie le désert -
À ce qui me dit indivis et fluide
chante levé dans l'essor du chant
essaim de lueurs que rien n'interrompt
mots et gestes brefs tissés dans l'ouvert -
Sur la rive rêche et endolorie
fruits tombés que décompose la mer
lambeaux de brumes, pansements jetés.
Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard,
Paris, 2004, p 81.
Nota - Lorand Gaspar nasceu em 1925 duma família húngara, em Marosvásárhely na Transilvânia oriental, hoje parte da Roménia. Fez aí o ensino secundário, sendo depois admitido no Instituto Politécnico de Budapeste em 1943, mas foi mobilizado meses mais tarde.
Em 1944, após o fracasso de uma paz separada seguido da imposição de um governo nazi na Hungria, Lorand Gaspar é deportado para um "campo" na Suabo-Francónia, de onde consegue fugir em Março de 1945 e apresentar-se a uma unidade francesa que se encontrava situada perto de Pfullendorf.
Estudou medicina em Paris e veio depois a ser cirurgião em vários hospitais franceses.
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Nota -(...) Séculos mais tarde( a Eurípides, Séneca e Ovídio) Corneille (1606-1684) retomou o tema na sua peça "Medeia". Para ele, Jasão é um homem ambicioso, não heróico, que faz do relacionamento amoroso apenas um instrumento para alcançar os seus objectivos (...) O poeta austríaco Franz Grillparzer (1791-1872) dedica uma trilogia à lenda do "Tosão de Ouro".(...) Jean Anouih (1910-1987 ) também aborda o tema, embora utilizando uma linguagem moderna: Medeia é uma cigana e a sua humilhação não está no abandono, mas na piedade do homem que a deixou. Seu orgulho fere-se porque ela deseja amor e não um tratamento compassivo. Para Pier Paolo Pasolini ( 1922 -1975 ), Medeia aparece como vinda de um país bárbaro onde se sacrificam vidas humanas. Ela tudo abandona por amor de Jasão, inclusive a sua magia, mas quando se vê traída, utiliza os seus dons para se vingar. Entretanto, na Medeia de Pasolini entrelaçam-se presente e passado, e ela parece muito mais próxima da mulher moderna que comete um crime passional do que de uma feiticeira da Antiguidade. De todos estes autores, para o meu modestíssimo poema, apenas me interessaram Corneille e Pasolini.
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" Medeia e os Outros Tempos"
Vista daqui a terra não tem a importância que julga
ter. Vista daqui até a cidade, teia de empestada glória
e ridículas imagens, a ostentação recusa. Vista daqui,
ó odiosa Corinto, não passas de uma puta velha
a cirandar pela praia, no alcance de afectos jamais
refeitos ou de memórias à deriva, por entre marinheros,
sidra, bárbaros dizeres, que nunca entendeste nem a isso
chamada foste. Vista daqui apenas eu coincido comigo:
princesa cólquida, dona de insondáveis talentos e artes,
arrebatada, crédula nas palavras dos homens, implacável
se com essas mesmas palavras eles atraiçoam os pactos,
a solidariedade generosa, a mais resplandecente entrega
quando enorme e até mesmo sagrada. Por tudo isto te vi
eu cair, ó verme! Ao ver-me de tal modo afastada
da tua cama, do teu corpo que tão bem montava como a potro
selvagem nas planícies da Tessália, da tua boca quase sempre
em lume, gume em mim esventrada do já ciúme, nesse cume
de coisa pouca, que em nada transformei com minha fúria
e vingação de fêmea atraiçoada, quase louca. Acaso pensaste
que, impune, te deixaria partir, para lá do tudo que havíamos
partilhado? Acaso supunhas que te daria um aberto caminho
para de novo assaltares tronos e troféus? Eu, que traí uma linhagem,
um povo; eu que dispersei os pedaços de Apsirto (o miserável!),
que me vinha dar caça, como o costume prediz a guerreiro macho
e irmão. Ai, pobre Jasão, que das mulheres nada sabias!
Sobretudo daquelas para quem a honra não é negociável,
nem a dignidade se troca na ágora, por entre potes
de azeitonas, galinhas poedeiras ou as mais raras especiarias
vindas do oriente. Vê (desgraçado) ao que te levou a cupidez
sem freio, a vida onde o ter e o parecer apenas bastavam,
espezinhando tudo o que os outros são, esperam, sonham.
Restam-te hoje os unguentos que não cheguei a usar,
os estiletes envenenados, as funestas sementes que a pressa
nem me deixou triturar. Restam-te as convulsões de Glauce,
tão culpada quanto os outros, o cadáver já frio de Creonte
com seus lábios de Cera, seus olhos baços, como costumavam
ficar quando de ambição cheios, tal como os teus, seus gémeos
e herdeiros. Restam-te os corpos inocentes de teus filhos,
lapidados pelos coríntios em fúria, que, ao quererem atingir a mãe.
o pai castigaram com raiva nunca antes vista por estas paragens.
O que de ti ficou ( infeliz), por tal ganância e soberba desenfreada,
é nada - absolutamente nada! Mas não te iludas Medeia, os homens
deste tipo raramente mudam: levantam-se após a dor encenada e,
estropiados, retomam sua antiga crueldade, bem mais crueldade
porque primeira e não resposta; levantam-se e, quais loureiros
persistentes, sugam as húmidas vertentes, os frondosos bosques.
Sossega Medeia! Acalma essa cabeça de teus crimes talvez inúteis.
Aguarda. Quem poderá saber o desenlace de tão horrenda história?
Victor Oliveira Mateus
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Foto de Bara Prasilova (República Checa) do ciclo "Never Happened"
"ode do fim da paixão"
agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.
as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.
deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.
agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.
ana salomé In " Odes", Ed. Canto Escuro, s/c, 2008, p 94.
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Arménio Vieira é um escritor que sempre me intrigou. Lembro-me de o ter visto pela primeira vez - não conhecido, pois nunca fomos apresentados - numas férias em Cabo Verde. Estava com a minha amiga e anfitriã, Evelina Santos, e entrámos num bar-restaurante da Prainha. Lá estava ele, imerso no seu jogo, beberricando a sua cerveja, e ela apontou-mo: aquele é o Arménio Vieira, mas não tenho relações com ele por isso não to apresento... Entendi, por isso, que não seria gente de grandes aberturas com quem não conhece. Ademais, parecia completamente alheado de tudo, apenas concentrado no seu jogo.
O cuidado, essa derivação não científica de outras categorias como a de rigor, parece-me ser uma das vertentes fundamentais da escrita de Carlos Vaz; tipo de depuração que nem sempre se nos apresenta do mesmo modo: rondando a musicalidade onde a estrutura narrativa é secundarizada ante o fulgor do dito, como em Gabriela Llansol, em "Capricho 43"; o burilar da linguagem que, sem perder uma certa poeticidade, opta agora por uma mensagem directa bem ao jeito de escritores como Mário Henrique Leiria, em "O Estrangulador dos Bonecos de Neve"..jpg)
" O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos" é o novo livro de José Agostinho Baptista
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a sessão de lançamento será no dia 4 de Julho (sábado), pelas 18 horas, no Restaurante
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Many, na Fajã da Areia, São Vicente (entre São Vicente e Ponta Delgada)
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(Informação via "Porosidade Etérea". Um grande obrigado à Inês Ramos. )
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Azulejos fachada (Lisboa) - século XIX. Foto de Manuel M. Pinturache (2004).
Ode da liberdade II
devíamos criar uma cidade nova
livre
desde as pontas dos dedos
as estradas
à polpa das palmas das mãos
as muralhas
até ao centro histórico
para nela vivermos séculos sem fim
e mergulharmos nos rios as linhas do destino.
devíamos criar uma cidade livre
nova
desde o vulcão
o nosso repouso em labaredas
para um primeiro beijo
fora do território nacional
até à lonjura da maior viagem
dormirmos na pousada
que abriga tectos em estrelas
com os olhos fechados
trocados
numa nova cidade
até sermos ilha.
quando regressássemos
morávamos
na nossa grande casa da árvore
cravejados de folhas
pássaros e beijos
as mãos um do outro
polpa de maçã
só à espera de ver nascer
a madrugada debaixo dos braços
para o último arrepio
de todos os tempos
amarmo-nos.
ana salomé In "odes", Editora Canto Escuro, s/c, 2008, pp 64-65.
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"Os Escribas"
Nunca senti por eles grande entusiasmo.
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.
Na quietude do scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.
Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.
De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.
Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.
Seamus Heaney In "Da Terra à Luz - poemas 1966-1987 ",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1997, p. 333, (trad. Rui Carvalho Homem).
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"Effigy"
If you come to find me affable
And build a replica for me
Would the idea to you be laughable
Of a pale facsimile
So when you come to burn an effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn this effigy
Il should be
For the hours that slip away
It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease
Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone...
So if you come to burn my effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn an effigy it should be
Of a man who's lost his way, slips away
Andrew Bird, do C.D. "Noble Beart", Wegawam Music Co., E.U., 2009.
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.Nota - As sardinhas só vieram hoje...Naquele terraço de corte mediterrânico entravamos e
saíamos. Lembrei-me dos pavões a quem o A. cortara as asas e as raposas devoraram num fim-de-semana. Alguém veio cá abaixo bater estridentemente palmas... "Para espantar os gaios - explicaram-me depois -, os cabrões dão cabo de tudo!". A música continuava a sair pelas janelas escancaradas. Eu e a H. protestavamos do exagerado volume do som.
Ninguém nos dava ouvidos. Felizmente! Porque foi assim que dei com um C.D. que me tinha escapado.
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2.
Nem é preciso vir, manda o teu nome
e com ele virão a tua imagem,
a vida, o amor e o tempo que se some
na busca do melhor como linguagem.
Mas é preciso ir, inominado
e simples como o acaso me permite:
buscando sempre esse teu lado alado
que se oculta sem tempo nem limite.
Aí teu corpo é mais que corpo - a essência
do melhor, do mais belo, do mais puro,
da vida desdobrada e sem carência
navegando em si mesma no futuro.
Gilberto Mendonça Teles In " Linear G." (No prelo)
Nota - Gilberto Mendonça Teles é hoje um dos grandes poetas do Brasil
e da língua portuguesa. Os seus aspectos biográficos encontrá-los-ão aqui na net.
Quero só agradecer-lhe o envio destes dois poemas ainda inéditos, bem como
a autorização que me deu para os publicar neste "sítio" de poesia. Em breve
publicitaremos aqui o lançamento do livro em questão.
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"marginal"
não sou poeta de dentro
vivo na periferia
onde aprendo ao relento
os sinais da poesia
sem outro mestre ou sebenta
outros meios auxiliares
que a alma nua e atenta
às evidências singulares
não vou às festas galantes
onde se bebe do fino
com papagaios falantes
num linguajar de cretino
(mas de cretino laureado
com imarcescíveis lauréis)
meu mundo é do outro lado
entre plebeus menestréis
marginal mas livre e limpo
de certas quedas na lama
com que se sobe ao olimpo
da torpe festa da fama
Cláudio Lima In "Itinerarium III", Opera Omnia Ed., Guimarães, 2006, p 40.
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oiço-te a respiração; é leve como a
de um pássaro em sono descuidado
os olhos, fechados, guardam a luz
perene, intensa, com que acendes
as auroras do mundo
o peito, num arfar ritmado de serenidade,
é o escrínio inviolado dos meus afectos
vigilantes
o umbigo assinala
um viveiro de pérolas cativas
a noite é longa na alvura do linho
onde repousas
nada é urgente ou repetido,
nenhum relógio tange os ponteiros agressivos
do dever
olho-te em silêncio e sou feliz
Cláudio Lima In " Maçã pra Dois", Ed. Tartaruga, Chaves, 2001, p 14.
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Jacques Prévert (4/2/1900 - 11/4/1977 )
" TENTATIVE DE DESCRIPTION D'UN DÍNER DE TÊTES A PARIS-FRANCE"
Ceux qui pieusement...
Ceux qui copieusement...
Ceux qui tricolorent
Ceux qui inaugurent
Ceux qui croient
Ceux qui croient croire
Ceux qui cro-croa
Ceux qui ont des plumes
Ceux qui grignotent
Ceux qui andromaquent
Ceux qui dreadnouhetent
Ceux qui majusculent
Ceux qui chantent en mesure
Ceux qui brossent à reluire
Ceux qui ont du ventre
Ceux qui baissent les yeux
Ceux qui savent découper le poulet
Ceux qui sont chauves à l'intérieur de la tête
Ceux qui bénissent les meutes
Ceux qui font les honneurs du pied
Ceux qui debout les morts
Ceux qui baionnette... on
Ceux qui donnent des canons aux enfants
Ceux qui donnent des enfants aux canons
Ceux qui flottent et ne sombrent pas
Ceux qui ne prennent pas Le Pirée pour un homme
Ceux que leurs ailes de géants empêchent de voler
Ceux qui plantent en rêve des tessons de bouteille sur la grande muraille de Chine
Ceux qui mettent un loup sur leur visage quand ils mangent du moutont
Ceux qui volent des oeufs et qui n'osent les faire cuire
Ceux qui ont quatre mille huit cent dix mètres de Mont Blanc, trois cents de Tour Eiffel, vingt-cinq centimètres de tour de poitrine et qui en sont fiers
Ceux qui mamellent de la France
Ceux qui courent, volent et nous vengent, tous ceux-là, et beaucoup d'autres, entraient fièrement à l' Élysée en faisant craquer les graviers, tous ceux-là se bousculaient, se dépêchaient, car il y avait un grand diner de têtes et chacun s'était fait celle qu'il voulait .
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Il fait chaud. Amoureuses, les allumettes-tisons se vautrent sur leur trottoir, c'est le printemps, l'acné des collégiens, et voilá la fille du sultan et le dompteur de mandragores, voilà les pélicans, les fleurs sur les balcons, voilà les arrosoirs, c'est la belle saison.
Le soleil brille pour tout le monde, il ne brille pas dans les prisons, il ne brille pas pour ceux qui travaillent dans la mine,
ceux qui écaillent le poisson
ceux qui mangent la mauvaise viande
ceux qui fabriquent les épingles à cheveux
ceux qui soufflent vides les bouteilles que d'autres boiront pleines
ceux qui coupent le pain avec leur couteau
ceux qui passent leurs vacances das les usines
ceux qui ne savent pas ce qu'il faut dire
ceux qui traient les vaches et ne boivent pas de lait
ceux qu'on n'endort pas chez le dentiste
ceux qui crachent leurs poumons dans le métro
ceux qui fabriquent dans les caves les stylos avec lesquels d'autres écriront en plein air tout va pour le mieux
ceux qui en ont trop à dire pour pouvoir le dire
ceux qui ont du travail
ceux qui n'en ont pas
ceux qui en cherchent pas
ceux qui donnent à boirent aux chevaux
ceux qui regardent leur chien mourir
ceux qui ont le pain quotidien relativement hebdomadaire
ceux qui l'hiver se chauffent dans les églises
ceux que le suisse envoie se chauffer dehors
ceux qui croupissent
ceux qui voudraient mangent pour vivre
ceux qui voyagent sous les roues
ceux qui regardent la Seine couler
ceux qu'on engage, qu'on remercie, qu'on augmente, qu'on diminue, qu'on manipule, qu'on fouille, qu'on assome
ceux dont on prend les empreintes
ceux qu'on fait sortir des rangs au hasard et qu'on fusille
ceux qu'on fait défiler devant l'Arc
ceux qui ne savent pas se tenir dans le monde entier
ceux qui n'ont jamais vu la mer
ceux qui sentent le lin parce qu'ils travaillent le lin
ceux qui n'ont pas l'eau courante
ceux qui sont voués au bleu horizon
ceux qui jettent le sel sur la neige moyennant un salaire absolument dérisoire
ceux qui vieillissent plus vite que les autres
ceux qui ne se sont pas baissés pour ramasser l'épingle
ceux qui crèvent d'ennui le dimanche après-midi
parce qu'ils voient venir le lundi
et le mardi, et le mercredi, et le jeudi, et le vendredi
et le samedi
et le dimanche après-midi.
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Jacques Prévert In "Paroles", Éditions Gallimard, Paris, 1949, pp 5-16.
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Foto de autoria do polaco Oiko Petersen. Este trabalho pertence
ao ciclo "Downtown Collection".
O AUTOR CONSTRÓI UM MODELO DO UNIVERSO QUE
OBEDECE APENAS À PRESENÇA VOLÁTIL DA AMADA
não há muito mais a fazer sobre o chão depois de se ter olhado
o mar cheirado a terra assistido ao verão incorrer
feroz no lugar das têmporas e ter
apontado decifrado a sujidade derramada sobre o planeta
sob a mudez das flores
porquanto eu admito haver ainda tanto a fazer e a desfazer
no mundo
rodar um complicado jogo de esferas mapear o
insondável lugar do amor
democratizar o perfume das populosas pétalas do gerânio
e da papoila vermelha tão próximas pétalas de um rosto
de natureza mais que babilónica
regresso sempre ao modelo geocêntrico do universo
centrado na amada
tudo gira em volta desse rosto lírio entre os cardos
esqueço a coperniciana construção do mundo amiúde imundo
muitas vezes hei-de voltar à mulher
como as ondas voltam num rigor de espuma aos versos de ruy belo
e desenho na aliterada elegância da paronomásia
o arquétipo da letra - minha ortografia copiada dos
extractos mensais do céu
que é o mesmo que dizer: resumi sempre os mistérios cósmicos
à deslumbrante assiduidade dessa face
anterior à graduação musical pitagórica pouco coeva destes pássaros
que crescem alheios a bach na folhagem e caem para o céu
contrários insurgentes sublevados às propostas de isaac newton
a quem começaram primeiro por obedecer as maçãs
e agora todo o universo se convencionou
julgo dizer nestes versos que nunca amei tão alto nesta cidade
que nunca os antigos pensadores da ásia ousaram de tanta liberdade
moral e estética que ninguém foi tão silencioso e inútil
frente ao mar do estoril onde esta tarde ateei dez cigarros dez
fortíssimos por causa das coisas
que nunca abri tanto o tórax que nem nunca os velhos pintores
mongóis do século dezasseis
saberiam copiar tão bem o entono de amamte amplo
frente ao mar de um mês frio de um ano bissexto
a balbuciar: amo-te todo o ano e neste fevereiro
ainda mais um dia
esperando nas palmas do século na miséria estíptica do país
o acelerar do degelo dos pólos para que o mar lave e leve de vez
esta terra que sempre publicitou a sua vocação para o mar
não há nada a fazer neste mundo a não ser o gesto de
circunscrever a amada entre as demais mulheres
pensar determinar métodos ficar em casa a escrever princípios
de exclusão e equivalência
tratados enigmáticos
que definam e representem num rigor alcoólico
um sistema livre de tudo o que não obedeça ao aferro
da amada
Miguel-Manso In "Quando Escreve Descalça-se", Ed. Trama Livª,
Lisboa, 2008, pp 16-17.
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O J.S., heterossexualíssimo de gema, acabou de me enviar a Petição abaixo indicada,
relativa a um "Movimento pela Igualdade no Acesso ao Casamento Civil entre Pessoas
do Mesmo Sexo". Os meus amigos próximos sabem o quão sensível sou a questões relacionadas
com heranças, doações, partilhas, etc. , assim, à imagem de outras Petições, que por justas
tive, também esta vai aqui indicada:
http://www.PetitionOnline.com/mpi/
A referida Petição, segundo vi, foi já assinada por grandes nomes da Cultura e da
Política, mas em caso de "hesitação imagista"... façam o que a A.P. costuma fazer:
coloca dois dos nomes do meio e, sorrindo maliciosamente, diz-me: "já está, ninguém vai
descobrir que sou eu!"
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José Craveirinha nasceu em Maputo a 28 de Maio de 1922 e faleceu na República
da África do Sul a 6 de Fevereiro de 2003. Considerado um poeta importante da
Língua Portuguesa veio a ganhar o Prémio Camões em 1991.
"Cantiga do Batelão"
Se me visses morrer
os milhões de vezes que nasci
Se me visses chorar
os milhões de vezes que te riste...
Se me visses gritar
os milhões de vezes que me calei...
Se me visses cantar
os milhões de vezes que morri
e sangrei...
Digo-te irmão europeu
havias de nascer
havias de chorar
havias de cantar
havias de gritar
E havias de sofrer
a sangrar vivo
milhões de mortes como Eu !!!
José Craveirinha In "Xigubo", Edições 70,
Lisboa, 1980, p 36.
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Nunca saberemos o que passou pela cabeça daquela mulher quando chamada a ver e a tomar decisões. Penso que eu teria agido de outro modo. Mas, claro, é fácil ajuizarmos quando o que está em causa não é a vida própria! De qualquer modo, este é um excelente filme sobre o comportamento humano. Recoloca Stephen Frears e Hellen Mirren no grupo dos meus preferidos.
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. "... acho feio o modo como subitamente toda a gente começou a bater nela!"
Parte de uma intervenção de Michael Sheen, enquanto Tony Blair, no filme acima indicado.
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INFORMO OS VISITANTES DESTE BLOGUE QUE ACABEI DE PUBLICAR OS DOIS
ÚLTIMOS COMENTÁRIOS A POSTS. DAQUI PARA A FRENTE RESPONDEREI E/OU
AGRADECEREI POR MAIL , OU NO BLOGUE RESPECTIVO, MAS OS COMENTÁRIOS
JAMAIS SERÃO PUBLICADOS. A CAIXA DOS REFERIDOS COMENTÁRIOS NÃO SERÁ
RETIRADA, PARA PERMITIR QUE AS PESSOAS QUE NÃO TÊM OS MEUS ENDEREÇOS
POSSAM DIZER, NESSE ESPAÇO, O QUE LHES APROUVER, COMO ACABOU DE
ACONTECER NO POST IMEDIATAMENTE ANTERIOR.
v.
o.
m.
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Não me parece claro o nome do fotógrafo deste trabalho, suspeito que seja
Ghislain Simard que é também o autor do texto sobre como fotografar o movimento.
desarrumo essa estrela que estala nos teus olhos como alma que se
assopra ao sabor da substância das águas que não sendo lágrimas são a
cal suspensa dos lábios. que sendo casa são delírios que o vento arrasa.
que não sendo corpo é a tua asa sobre um relâmpago que é a nossa chegada.
íngreme o destino do instinto das tuas pupilas, onde me desenhas um
sinal. que sendo recente é antigo. próximo da música longe das estátuas.
que te abrasam como palavras cegas... tão dolorosamento cegas.
e se é ao sul que os animais se estendem ao sol estendo-te a memória.
faz-me um nome. um só que seja. só uma sílaba. tu sabes que a morte é
um grito. sufocado e laço. nó que te desato. para que me sejas o
assombroso movimento de um bicho de seda. distância lenta na tua
pele. sempre adiante.
sempre pálpebra delicada... macio dedilhar onde te cuido a favor do
tempo... taça de espuma selvagem onde te declaro mais puro.
e se disser que te amo? como ilha convulsiva?
e se disser que me és MAIOR na orla das marés e que me invades como um
osso fino... que dirás amanhã... quando o dia te fizer carta ou
pássaro?
Isabel Mendes Ferreira In "Os dias do Amor - Um poema para cada dia
do ano" (Antologia organizada por Inês Ramos e prefaciada por Henrique
Manuel Bento Fialho), Ministério dos Livros Editores, Parede, 2009, p 300.
Para mais, ver aqui: www.mendesferreira.blogspot.com
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DIA 30 DE MAIO, PELAS 17h,30, NA LIVRARIA ARQUIVO, EM LEIRIA,
A APRESENTAÇÃO, POR HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO, DO LIVRO
" DISPERSÃO - POESIA REUNIDA" DE NUNO DEMPSTER. LEITURAS POR
MERCÍLIA FRANCISCO.
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A MESMA OBRA SERÁ DEPOIS APRESENTADA, NO DIA 6 DE JUNHO
PELAS 16h,30, NO CAFÉ GUARANY (À AVENIDA DOS ALIADOS)
NA CIDADE DO PORTO. ESTA APRESENTAÇÃO ESTARÁ A CARGO DE
AMADEU BAPTISTA E AS LEITURAS SERÃO FEITAS POR MARIA
CELESTE PEREIRA.
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Pátio interior do Plalácio Ducal de Urbino. obra do arquitecto dálmata Luciano Laurano. Este palácio considerado um dos mais belos de todo o Quattrocento italiano, teria influência directa da obra de Bramante, que nele passou a Juventude.
Título da Foto: "Brainstorming"
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para postar um dos seus poemas recentemente publicados em Espanha.
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POEMA DE NAVIDAD
En navidad no te olvides de limpiarte las legañas
y de indagar por dentro de los ojos el pulso del mundo.
Limpia las caños de las escopetas,
para que después no pierdas tiempo al disparar.
Respira. Hazte una limpieza de cútis, quítate
todas las espinillas y prepárate para la cena.
Dale una sopa a los pobres, tira piedras a las latas,
acaríciale el pelo al perro, aunque tenga pulgas.
En navidad hasta las pulgas son bienvenidas. Respira.
En navidad dale cuerda a los muñecos, programa las cuerdas
vocales para un playback hospitalario y carcelario.
Reparte canapés entre los vagabundos, los forajidos,
los dictadores acosados. Prepárate para un (a)balanceo.
Respira. En navidad alégrate con tu cuenta a cero,
con el patrón con la bolsa azul al hombro, con los espantajos
cotidianos, con las huelgas de la huelga,
con la mensulidad vestubular en una patada de misericordia.
En navidad sic. Porque en navidad toodos los demonios son buenos.
Por lo menos un dia al año: olvídate del mundo
que se extiende más allá de las fronteras.
Quédate en un viaje detenido, quédate:
detenido - como un sonido que se balancea dentro del cuerpo,
como una piedra que sangra en la piel de un cuerpo callado.
Que ese sea el dia de navidad. Aunque estes obligado
a pagar el peaje de un suicida más que no cree
en la expiación universal de los pecados particulares,
en navidad dame un abrazo y no digas que fuiste de aquí.
Henrique Manuel Bento Fialho In " BALUERNA - Cuadernos del Viajero
(nº 29)", trad. Antonio Sáez Delgado, Estación de Autobuses, Cáceres, 2008.
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AUNG SAN SUU KYI, PRÉMIO NOBEL DA PAZ, "ACABOU DE RECEBER NOVAS
ACUSAÇÕES DIAS ANTES DO FIM DO CUMPRIMENTO DA SUA PENA DE 13 ANOS"...
ESTÁ A CIRCULAR UMA PETIÇÃO DIRIGIDA AO SR. BAN KII MOON, SECRETÁRIO
GERAL DA ONU
aqui: http://www.avaaz.org/po/free_aung_san_suu_kyi
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O Blogue "POETA EUNICE ARRUDA" passou a fazer parte das HIPERLIGAÇÕES deste
Blogue. Como sabemos já aqui ocorreram conversas acerca da poesia desta autora, agradeço,
portanto, à Eunice Arruda toda a informação que me vai passando acerca da sua actividade
como poeta.
Ver aqui: www.poetaeunicearruda.blogspot.com
MUITO IMPORTANTE:
"A minha lista de blogues", reduzida como se pode ver, não representa todos os blogues que costumo visitar. O mais correcto seria um regime de rotatividade que informaticamente eu
não sei aplicar ainda, assim blogues como "planalto" (já o disse à o'sanji), "Pausa para um café", "Poema e Filosofia", "Assimetria do Perfeito", "Porosidade Etérea", "Alicerces" etc., etc., etc. (e agora o da Eunice!), continuam em "Hiperligações", tudo devido a incapacidades minhas e a uma certa falta de tempo, aliás suspeito que este espaço começa a precisar de uma segunda pessoa... Há mesmo blogues onde eu gostaria de me deter mais vezes (o da Maria José Quintela, o do Vitor Oliveira Jorge, o do Dirceu Villa, o da Maiara Gouveia, etc.) e não consigo tempo... Tentarei
repensar tudo isto.
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OS SETE EPÍGONOS DE TEBAS de José Carlos Barros“[…] as mulheres dos montes / viravam os estrados / para o lado de dentro / dos teatros / […]”“Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa – / […] / a libertar-se da âncora genealógica / pela destruição do livro / dos exemplos. […]”“[…] mudava / os parágrafos / e depois procurava no forno do povo / ou no tanque do largo / ou na lenha de bétula arrumada nos telheiros / o eco da frase inaugural /[…]”Escolho, mais ou menos ao acaso, alguns versos de um livro de José Carlos Barros, ainda inédito. Quanto mais o leio, mais se aproxima de mim a sua estrutura, os pilares e lintéis de um edifício a que o autor empírico resolveu chamar Os Sete Epígonos de Tebas. Não estou perante uma colectânea de poemas; tenho nas mãos um livro de poesia. E, como qualquer objecto digno dessa classificação (isto é, que não seja apenas uma reportagem ou muita verborreia, empilhadas em linhas que não chegam ao final da folha impressa), escolhe – seguindo a frase de Herberto Helder colocada na obra como epígrafe – a arte “de ver cometas / despenharem-se / nas grandes massas de água”. Ou seja: arrisca assistir ao movimento descendente, violento, de corpos ígneos, cuja matéria entra em contacto explosivo com terra, purificando-a pelo fogo e, depois, pela expansão rápida de um líquido cuja passagem lava o espaço, os seres nele viventes e a sua memória. Terminado o maremoto, o contacto do fogo com a água – que José Carlos Barros parece desejar ver e registar – produz ainda uma matéria volátil: essa “nuvem” ou “névoa” que (segundo um poema do mexicano Luis Arturo Guichard) transforma os campos mais comuns em bosques plenos de mistério, embora quase sempre se veja apagada pelo fumo. E são os adoradores do fumo que vencem a primeira de duas batalhas pela sobrevivência de Tebas. Tebas – uma cidade contaminada por contínuas lutas pelo poder absoluto, condenada à desagregação por ter destruído dessa forma a herança civilizadora de Cadmo, o seu fundador –, que só pelo fogo poderá talvez ser conservada. É essa tentativa de preservação que, na minha leitura, se vê reflectida no livro de José Carlos Barros.Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo, sobre o seu registo num texto escrito feito poesia e sobre as circunstâncias adversas que este tem de vencer para atingir a sua melhor realização estética e ética. Quem lê “Tebas” nesta obra deve pensar na “escrita” ou na “poesia” (aí renascida pela mão dos gregos ou de fenícios chegados à Grécia), sendo a luta dos “epígonos” (ou seja, dos descendentes) um processo de revitalização – dura e violenta – do texto artístico. É preciso destruir toda a escrita mergulhada no caos dos interesses e do poder temporal para que algo nasça de novo a partir dos alicerces – ainda que os vencedores finais (após a destruição da cidade) sejam sempre acompanhados pelo “opróbio da emulação”, porque “Os heróis” derrotados na primeira refrega “[pereceram] nos campos / de batalha / com a lança dos desastres”.A vitória contra a erosão dos poderes literários consegue-se através da interioridade (virando “os estrados / para o lado de dentro / dos teatros”) e do espírito (procurando com ironia e desprendimento a “energia eólica” nascida nas “vagarosas pás / dos aerogeradores”), porque – segundo afirma o livro – “há um momento / em que a heresia e a coragem se confundem / e a baixa densidade dos núcleos / remove / por intuição / a desmesura / das memórias / descritivas / dos interesses”. Não esquecendo que é a memória da derrota dos antepassados (esse desenho nos “subterrâneos labirintos” da “cartografia pretérita dos desastres”) que conduz à vitória na guerra pela vertical dignidade da escrita e do texto, contra os seus hábeis manipuladores e niveladores que se servem deles para conseguirem honrarias jornalísticas, académicas e sociais. Porque só essa vitória permite que nunca se quebre, mesmo na humilhação, “esse / fio de novelo / que levava ao ouro e à água subtraída das nascentes: / ao rumor da pedra volátil / do volfrâmio”. A mensagem de José Carlos Barros neste livro (cujo mérito, muito saliente, João Candeias, Joaquim Cardoso Dias e o autor destas linhas – como membros do júri do Prémio Nacional de Poesia “Sebastião da Gama” – resolveram premiar) é clara e muito importante nestes tempos de alheamento e de confusão: “[…] / ninguém diz uma palavra. / E ninguém se move em redor do lume / com medo / da repercussão / dos desastres”, mas quando alguém procura água que purifique esse silêncio cúmplice e criminoso, “O vedor / [sente] que a vara / [aponta] ao céu: / a nuvem / em vez / das nascentes”. É então que o cometa de Herberto Helder produz o seu incêndio e a sua redenção: “[…] a nuvem das palavras [desce] sobre as tendas / e as dunas da península: / duas mãos” – o passado e o presente?, pergunto – “[tocam-se] / por um instante breve / e [ergue-se] no ar irrespirável / o rumor incandescente / dos incêndios / das florestas”. Azeitão, 16 de Maio de 2009 (Lido por RV na sessão de entrega do Prémio “Sebastião da Gama”).

EM BREVE À VENDA A "ANTOLOGIA LUSO-BRASILEIRA - UM RIO DE CONTOS "
ORGANIZAÇÃO DE: CELINA VEIGA DE OLIVEIRA E VICTOR OLIVEIRA MATEUS
PREFÁCIO DO SR. MINISTRO DO AMBIENTE DR. FRANCISCO NUNES CORREIA
POSFÁCIO DO SR. EMBAIXADOR DO BRASIL JUNTO DA C.P.L.P., DR. LAURO MOREIRA
CAPA DE NOOR VEIGA SOB ILUSTRAÇÃO DO PINTOR AMBRÓSIO.
EDITORA: EDITORIAL TÁGIDE, LDA.
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ESCRITORES POR ORDEM ALFABÉTICA:
ADELICE DA SILVEIRA BARROS, ALDYR GARCIA SCHLEE, ALEXANDRE ANDRADE,
ALEXANDRE BONAFIM, ANA COSTA RIBEIRO, ANA CRISTINA ALVES, ANA PAULA
CABRAL, ANA ZANATTI, ANDREA DEL FUEGO, ANTÓNIO JOSÉ DE MOURA, ANTÓNIO
VILELA, AUREA DOMENECH, CARLOS NEJAR, CATARINA FONSECA, DAVID OSCAR
VAZ, DIANA ALMEIDA, DIMÍTER ÁNGELOV, FERNANDO DACOSTA, FILIPA LEAL,
FLÁVIA SAVARY, FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, GUILHERME TRINDADE,
HENRIQUE LEVY, HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO, HUGO SANTOS, INÊS
VINAGRE, IRENE ZAIDE, JANE TUTIKIAN, JOÃO AGUIAR, JOÃO DE MANCELOS,
JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA, JOÃO LUÍS NABO, JORGE REIS-SÁ, JORGE VAZ
NANDE, JOSÉ HENRIQUE CALAZANS, LILIANA SILVA RIBEIRO, LUIZ RUFFATO,
MARCELO PUGLIA, MARGARIDA VALE DE GATO, MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA
DO SAMEIRO BARROSO, MARIA LUCÍLIA MELEIRO, MARIA TERESA HORTA,
MARIANA IANELLI, MIGUEL REAL, MOACYR GODOY MOREIRA, MOACYR SCLIAR,
MONIQUE REVILLION DINATO, OLGA SAVARY, PEDRO SENA-LINO, RITA TABORDA
DUARTE, ROGÉRIO ROLA, ROSA LOBATO DE FARIA, RUI ZINK, RUTE BEIRANTE,
SÉRGIO FARACO, TEOLINDA GERSÃO, TÉRCIA MONTENEGRO, TERESA FERREIRA
DE ALMEIDA, TERESA RITA LOPES, URBANO TAVARES RODRIGUES E VICTOR
OLIVEIRA MATEUS.
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Do Prefácio: " Por isso, ler os contos reunidos neste livro é um exercício, para além de lúdico, também apaziguador, conciliador de rumos vários, que nos permite todas as viagens e encontros,
mas que termina sempre num porto seguro onde encontramos uma bússola e um rumo. Enfim,
as palavras deste livro são gotas que formam rios que desaguam num imenso oceano de sabedoria e paz."
Francisco Nunes Correia
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Do Posfácio: " E o mais surpreendente do projecto talvez seja o seu viés inteiramente democrático em que autores consagrados desfilam lado a lado com jovens contistas iniciantes,
tendo como pré-requisito tão-só a qualidade literária de seus textos."
Lauro Moreira
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COMPRA E RESERVA DA OBRA PARA:
EDITORIAL TÁGIDE LDA.
Rua Paulo Duque, 8 - E - 1495-700 DAFUNDO - PORTUGAL
email: editorial.tagide@gmail.com
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"Chi" fotografia de Taiji Matsue
FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE CLÁSSICA DE LISBOA
ANFITEATRO II - 5 de JUNHO DE 2009 pelas 15h
CONFERENCISTA: PROF. GONÇALO RIBEIRO TELLES
TEMA : A PAISAGEM GLOBAL
Evento integrado no 3º Seminário do Projecto de Investigação
FILOSOFIA E PAISAGEM
Moderadores: Profª Adriana Veríssimo Serrão, Prof. Paulo Frazão Roberto,
Profª Manuela Raposo Magalhães e Profª Aurora Carapinha.
ENTRADA LIVRE.
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Faleceu ontem (17/5/2009), com 88 anos, o escritor uruguaio
Mario Benedetti. Olhar atento debruçado sobre o seu tempo
Benedetti deixa atrás de si mais de oitenta títulos publicados:
poesia, romance, ensaio... A sua obra versa grandes temas
como: o compromisso social, o amor, a vida, a ética, enfim,
esses temas que alguns - por estratégia centrada no seu próprio
umbigo!- dizem em desuso.
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"Atlântico"
Sempre que atravesso o oceano
suspeito que algo se abre na distância
quando cruzo o crepúsculo sem pássaros
é como se começasse a viver de novo
mas uma vida outra/ desprendida
de um passado até agora inexplicável
clemências e longínquas efusões
assomam implacáveis na massa de nuvens
talvez para medir o meu esboço de infinito
e há pobres abalos de uma verdade a toda a prova
um rufar de tambores que perturbaram o descanso
marcas de esperanças ou de tédio
por isso sempre que atravesso o oceano
os ouvidos isolam-me/ a memória zumbe
as hospedeiras oferecem o seu sorriso estudado
e o piloto encarrega-se da minha alma
é como se morresse por instantes
mas uma morte nova/ em equilíbrio
Mario Benedetti In "O Mar na Poesia da América Latina",
Assírio & ALvim, Lisboa, 1999, p 385 (Organização de Isabel
Aguiar Barcelos e Tradução de José Agostinho Baptista).
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"Alone" fotografia de Ivan Bajic (Hungria, 2009).
"Luto"
Os amigos são feridas antigas que crescem
connosco. Feridas que por vezes cicatrizam,
deixando-nos inteiramente contra o vento.
Aconchegados a uma arrastada melancolia,
ingerimos pequenas doses de substâncias letais,
coisas que nos dão cabo do canastro, por assim dizer.
Eis, em suma, o desalento com a vida
que entretanto nos assola, presos
a uma espécie de amargura e de desejo.
Porém, o instinto de sobrevivência
é a ferramenta mais espalhada no mundo.
Toda a gente aprende a utilizar esse recurso.
E não falo do modo como reconhecemos as aves,
as plantas. Ou de como construímos abrigos
nocturnos nas copas das árvores.
Falo simplesmente de uma grande habilidade
para limpar o local do crime:
admitimos sempre que melhores dias virão;
faz parte da nossa essência.
Pois bem, cortámos o alarme agora mesmo.
De quanto tempo precisamos, afinal?
Vítor Nogueira In "Comércio Tradicional", Averno,
Lisboa, 2008, p 32.
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ESPOSA
Aonde te escondeste,
Amado, que me deixaste com tal gemido?
Como veado correste,
Tendo-me ferido;
Saí atrás de ti clamando, mas já tu eras ido.
Pastores, vós que ides
Além pelas malhadas do outeiro,
Se por ventura virdes
Aquele que mais quero,
Dizei-lhe que peno, morro e espero.
Buscando meus amores,
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei flores,
Nem temerei feras,
Antes passarei fortes e fronteiras.
PERGUNTA ÀS CRIATURAS
Oh bosques e matas de tanta espessura,
Tudo plantado pela mão do meu Amado!
Oh prado de verdura,
De flores esmaltado,
Dizei-me se por vós ele tem passado!
RESPOSTA DAS CRIATURAS
Mil graças derramando,
Passou por estes soutos com ligeireza,
E para eles olhando,
Com sua figura e destreza,
Vestidos os deixou de beleza.
ESPOSA
Ai quem me poderá curar?
Vem, entrega-te em acto puro e verdadeiro,
Não insistas em enviar
Nenhum outro mensageiro,
Que não saiba o que quero primeiro.
Pois todos os que me vêm visitar,
De ti mil graças vão contando,
E todos acabam por ulcerar,
Pelo que vão balbuciando,
O que em mim se vai finando.
Mas, como podes insistir,
Oh vida, não vivendo onde vives?
Levam-te daqui a partir,
Os dardos que recebes,
Do que do Amado concebes.
Porquê, pois, teres golpeado
Este coração, não o curando,
Já que mo tinhas roubado?
E porquê ires assim deixando,
Todo o saque que vais tirando?
Que meus pesares, por ti, apagados sejam,
Já que nenhum outro os pode desfazer,
E que meus olhos, por fim, te vejam,
Pois és a luz que os faz ver,
E só por ti os quero ter.
Revela-me a tua presença,
Mata-me com essa aparição e formosura;
Olha que toda a doença
De amor, apenas se cura
Com a presença e a figura.
Oh fonte de cristal tão brilhante,
Se nesses teus traços prateados,
Formasses num mero instante,
Esses olhos almejados
Que em mim tenho desenhados!
Afasta-os, Amado,
Que meu voo se inicia!
ESPOSO
Volta, pomba, para meu lado,
Que o cervo magoado
Pelo outeiro aparece
Ao ar do teu voo, e aí reverdece.
ESPOSA
Amado meu, as montanhas,
Os vales solitários e nemorosos,
As ilhas estranhas,
Os rios rumorosos,
O silvo dos ventos amorosos.
A noite sossegada
Aquando do surgir da aurora,
A música silenciada,
A solidão sonora,
A ceia que alegra e enamora.
.........................
Oh ninfas da Judeia,
Enquanto que nas flores e roseirais
O âmbar balanceia,
Ficai onde morais,
Sem quererdes tocar nossos umbrais!
Esconde-te, Amado,
E olha com tua face as montanhas,
Mas nada querendo enunciado:
Observa também as companhas
Da que vai por ilhas estranhas.
............................
Desfrutemo-nos Amado,
E vejamos na tua formosura
O monte e o colado,
Donde brota a água pura;
Entremos mais adentro na espessura.
E logo nas subidas
Em cavernas de pedras entraremos,
Que estão bem escondidas,
Mas ali iremos,
E o mosto das romãs provaremos.
Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E depois me darias
O que me deras noutro dia,
Tu, vida, que eu tanto requeria.
O aspirar do ar,
Do rouxinol a doce cantilena,
O bosque e seu embelezar
Na noite serena,
Com chama que consome e não dá pena.
Que ninguém o olhava,
Aminadab tão-pouco aparecia,
E o cerco sossegava,
E a cavalaria
Ao ver as águas descia.
S. João da Cruz In "Poemas de S. João da Cruz",
Coisas de Ler Ed., 2002, pp 17-35. (Edição bilingue
com tradução de Victor Oliveira Mateus).
Nota - Traduzir é sempre uma tarefa bastante complexa, sobretudo
quando estamos frente a grandes textos de poesia. No caso presente
tenho consciência de ter feito um trabalho bastante discutível, pois
estava frente a um autor cujas obras em prosa dominava (e domino)
razoavelmente. Ainda hoje considero "A subida ao Carmelo" o grande livro
de João da Cruz, por isso sacrifiquei aspectos formais desta poesia à coerência
interna de um pensamento. Nestas questões muitas são as opções e todas elas legítimas!...
Aqui usei, como base de trabalho, a edição do Padre Silvério de Santa
Teresa, C.D. (obras de San Juan de la Cruz, Burgos, 1929-31).
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